"Falar com 'Deus' é oração (?!); já ouvi-lo responder... é esquizofrenia."

terça-feira, 2 de novembro de 2010

O jogo bruto

Ricardo Gondim

Não sei se por ingenuidade ou imaturidade não me acostumei com jogo bruto. Para mim, jogo bruto é a constatação de que fui lançado na arena da maldade sistêmica, onde noto a hierarquização de interesses. Não sonho em deixar que neste jogo bruto alguém soque o meu pescoço com bota com sola de aço. Ando fatigado, sei que raposas, hienas e abutres andam doidos para abocanhar os incautos derrotados pelos grandes gladiadores.
Refiro-me aos interesses políticos. São muitos os que enxergam os mortais como massa que reboca as paredes onde abrigam sonhos onipotentes. Não aguento mais ouvir promessa de campanha eleitoral. Não suporto picuinhas ditas e repetidas para encobrir projetos pessoais. Não vejo verdade no jogo bruto da política e isso me desalenta a alma.
Mas o desalento não fica só com os políticos. Sou cria do mundo religioso. E estou des-iludido com lógicas infantis. Brechas separam discurso e prática e isso é muito ruim. Por enquanto a minha des-ilusão tem me feito bem - porque me faz cair na real - mas tenho medo de que ela descambe para o cinismo.
Por algum motivo, não tolero que pessoas sejam mobilizadas a partir de paranóias. Vejo alguns religiosos descrevendo um cenário de horror enquanto procuram fazer dos homossexuais os vilões do futuro. Os homossexuais se tornaram os inimigos que devem ser abatidos. Tais religiosos não só confundem promiscuidade com relações homo-afetivas, como fazem de vidas humanas o belo motivo para alavancar projetos. Eles cavam trincheiras e demonizam pessoas reais, com dramas reais, só para fazer valer seus discursos.
Enquanto isso, vejo inquidades vergonhosas nos bastidores do mundo religioso. Mas como algumas não resvalam na sexualidade, permanecem escondidinhas, intocadas. Não suporto testemunhar que Jesus de Nazaré é usado para promover empavonados, narcisistas, caça-hereges, ditadorzinhos de meia-taça, pseudo-teólogos, bispos sem báculo e os autopromovidos apóstolos.
Não sou santo e nem poso de palmatória do mundo. De tanto errar, de tanto cegar os olhos para as minhas próprias conveniências dogmáticas e de tanto falar obviedades eu também acabei entorpecido por emocionalismos religiosos. Eu também fiz parte de rinhas políticas. Eu reproduzi uma piedade melosa. Entre pecadores, sempre fui o principal.
Contudo, guardo esperança. Talvez eu melhore. Vou procurar o convívio de gente despretensiosa, que ama poesia, que ouve sabiás e bem-te-vis, que gosta de silêncio, que não vê diabo em cada esquina e que não vive a praticar alpinismo social em nome da democracia ou do sagrado. 
Por enquanto, estou de ressaca existencial, meio arredio. Preciso de um tempo...

Soli Deo Gloria
28-10-10

quinta-feira, 30 de setembro de 2010

ELEIÇÕES 2010: Chega de iniquidade - pronunciamento dos Evangélicos pela Justiça

À igreja brasileira,


Nós, do Evangélicos pela Justiça – EPJ, somos um movimento de evangélicos e evangélicas, organizados visando à busca da justiça do Reino de Deus no enfrentamento dos problemas sociopolíticos.

Queremos, com esta declaração, trazer um apelo às nossas igrejas a fim de contribuir com sua maturidade em meio a cada vez maior engajamento em questões sociopolíticas. Após um longo período de “apoliticismo”, líderes evangélicos passaram a defender, com a redemocratização, a participação política dos evangélicos. Saudamos este novo ativismo e militância política que trouxe a comunidade evangélica para a discussão dos rumos do país!


Embora haja alguns exemplos de fidelidade ao espírito do Evangelho e participação responsável na política os quais é necessário reconhecer, as últimas eleições e processos políticos têm testemunhado que, embora cada vez mais presente no jogo político, a participação dos evangélicos tem produzido, na maioria dos casos, mais vergonha que testemunho ético pela causa da justiça e do direito: troca de votos por concessões de rádios e canais de TV, envolvimento em escândalos, todo tipo de rendição aos vícios da política brasileira como o nepotismo, o clientelismo e o patrimonialismo, e a mentalidade de curral eleitoral e defesa de interesses corporativos. Infelizmente, a maioria desses problemas decorre da falta de princípios coerentes com o evangelho por parte de determinadas igrejas e pastores na compreensão do papel das igrejas na arena política, mas também da falta de experiência participativa de muitos irmãos e irmãs. Isto produz concepções e práticas distorcidas sobre a política.

À luz de recentes declarações de alguns pastores com o fim de “demonizar” certos partidos e candidaturas e sua repercussão na comunidade evangélica, fato que não é novo na história recente de sua participação política, gostaríamos de chamar a atenção para a necessidade de reflexão sobrealguns pontos:

1. Infelizmente, muitos têm se desmotivado a exercer suas obrigações como cidadãos e cidadãs responsáveis, emitindo sua opinião, votando de forma séria e consciente e acompanhando representantes e governos eleitos, em virtude de sucessivos escândalos e de estruturas partidárias e governamentais que não incentivam a participação cidadã consequente. Apesar de tudo, motivados pelo compromisso com o evangelho, acreditamos que é fundamental a participação no processo político-eleitoral e no enfrentamento dos problemas sociais para a construção de uma sociedade mais justa para todos conforme nos ensinam as Escrituras e o exemplo de Jesus.


2. O período das eleições é um momento extremamente importante para o desti no do povo brasileiro. Nossas igrejas podem e devem contribuir significativamente para a construção e fortalecimento da democracia. Defendemos que a democracia pode ser fortalecida com o engajamento ético e prático de nossas lideranças e igrejas nos momentos eleitorais, sobretudo através de momentos de formação que permitam aos seus membros adquirir uma visão crítica da realidade política e social para que não sejam facilmente enganados por fatos infundados, por corruptos ou por aqueles que querem enriquecer às custas do sofrimento do povo.


3. Para isso, sustentamos que boas ponderações políticas devem acontecer em espaços abertos ao diálogo com a participação de diferentes vozes. Nesse sentido, alertamos para o fato de que nossas igrejas são formadas por pessoas que defendem diversos candidatos de diversos partidos políticos e todos merecem respeito em suas escolhas como cidadãos e cidadãs. Qualquer tentativa de manipulação, coerção religiosa ou campanhas difamatórias pode enfraquecer a democracia, promover animosidades, transformar igrejas em currais eleitorais e produzir um péssimo testemunho perante a sociedade.


4. Rejeitamos, portanto, como sendo indignos do evangelho e da nossa herança reformada qualquer tipo de terrorismo eleitoral, formação de curral, demonização de candidatos e partidos — sejam quais forem — e ataque à liberdade de pensamento e expressão política nas nossas igrejas. Não negamos o direito a qualquer defesa de considerações ou opiniões a favor ou contra projetos de lei ou planos governamentais, pelo contrário. Todos necessitam ser amplamente debatidos e conhecidos pela população. Ao mesmo tempo, é ingenuidade política ou manipulação ideológica pregar purismos partidários. Também o é ignorar que a manifestação de opinião que incita à discriminação e/ou à violência não pode ser admitida numa sociedade democrática. Não existem partidos políticos e candidatos perfeitos. Qualquer leitura política e escolha eleitoral devem considerar a coerência com TODOS os valores do Evangelho, não apenas alguns, que se apliquem àquela situação, buscando avaliar conjunturalmente aqueles programas de governo que contribuam para a melhoria das condições de vida da maioria dos brasileiros e brasileiras, e mais se aproximem, assim, do princípio do amor ao próximo como a Deus que é a regra áurea do Evangelho.


5. Quanto a recentes declarações sobre a institucionalização da iniquidade no Brasil, nos perguntamos se nesse conceito cabem também as péssimas condições de saúde, educação, moradia, trabalho e renda, na cidade e no campo; se cabe a desfaçatez das elites brasileiras que há mais de 500 anos institucionalizaram a opressão da maioria da população brasileira, primeiro do indígena, depois, e ainda, dos negros, e das classes populares, entre outros grupos e segmentos; se cabe o racismo institucionalizado que nega direitos por causa da cor da pele; se cabe a violência institucionalizada que mata milhares de jovens a cada ano; se cabe a discriminação institucionalizada contra a mulher que ainda sofre violências e preconceito no mercado de trabalho, no lar e nas igrejas; se cabe o descaso institucionalizado com as crianças e os jovens aos quais lhes é negado o direito à vida digna; se cabe o descaso institucionalizado com os que vivem no campo, sem terra e sem condições de subsistência; se cabe o descaso institucionalizado com os idosos e idosas que contribuíram a vida inteira com o seu trabalho mas que não têm direito a uma aposentadoria e saúde decentes; se cabe a caricatura de grupos minoritários; e assim por diante. Sem negar as mudanças de valores por que passa a sociedade brasileira no campo dos direitos sexuais e reprodutivos, os quais necessitam ser discutidos democraticamente, semelhantemente ressaltamos a necessidade de se combater a iniquidade que assalta a vida nas suas mais diferentes expressões, algumas das quais elencadas acima.


6. Considerando o que foi dito acima e seu compromisso com os valores do Evangelho, o movimento Evangélicos pela Justiça (EPJ) recomenda o voto naqueles candidatos e candidatas e programas de governo que sustentam a superação das históricas desigualdades brasileiras, que não signifiquem retrocesso nas conquistas dos direitos sociais, culturais e econômicos, que não criminalizem os movimentos sociais e a luta da sociedade civil organizada, que defendam políticas públicas que garantam desenvolvimento com justiça e sustentabilidade para as próximas gerações, e que levem o Brasil a defender posições internacionais comprometidas com a justiça e equilíbrio geopolíticos.


Nesse espírito, dizemos CHEGA DE INIQUIDADE! e conclamamos a todos a se engajar tanto nesse período eleitoral como após o mesmo, buscando mais justiça para todos e a diminuição do sofrimento de nosso povo.


Felizes os que têm fome e sede de justiça!


24 de Setembro de 2010

EVANGÉLICOS PELA JUSTIÇA – EPJ


O EPJ - Evangélicos pela Justiça é um grupo de evangélicos/protestantes que tem como objetivo dialogar, propor melhorias e realizar atividades que contribuam para a redução dos problemas políticos e sociais existentes que geram e perpetuam as desigualdades sociais e injustiças em nosso país. É formado por 112 lideranças evangélicas representativas de várias igrejas evangélicas de 17 estados do Brasil.


sexta-feira, 17 de setembro de 2010

Eleições 2010: pronunciamento da Aliança de Batistas do Brasil

A Aliança de Batistas do Brasil vem, por meio deste documento, reafirmar o compromisso histórico dos batistas, em todo o mundo, com a liberdade de consciência em matéria de religião, política e cidadania. A paixão pela liberdade faz com que, como batistas, sejamos um povo marcado pela pluralidade teológica, eclesiológica e ideológica, sem prejuízo de nossa identidade. Dessa forma, ninguém pode se sentir autorizado a falar como “a voz batista”, a menos que isso lhe seja facultado pelos meios burocráticos e democráticos de nossa engrenagem denominacional.

Em nome da liberdade e da pluralidade batistas, portanto, a Aliança de Batistas do Brasil torna pública sua repulsa a toda estratégia político-religiosa de “demonização do Partido dos Trabalhadores do Brasil” (doravante PT). Nesse sentido, a intenção do presente documento é deixar claro à sociedade brasileira duas coisas: (1) mostrar que tais discursos de demonização do PT não representam o que se poderia conceber como o pensamento dos batistas brasileiros, mas somente um posicionamento muito pontual e situado; (2) e tornar notório que, como batistas brasileiros, as ideias aqui defendidas são tão batistas quanto as que estão sendo relativizadas.

1. A Aliança de Batistas do Brasil é uma entidade ecumênica e dedicada, entre outras tarefas, ao diálogo constante com irmãos e irmãs de outras tradições cristãs e religiosas. Compreendemos que tal posicionamento não fere nossa identidade. Do contrário, reafirma-a enquanto membro do Corpo de Cristo, misteriosamente Uno e Diverso. Assim, consideramos vergonhoso que pastores e igrejas batistas histórica e tradicionalmente anticatólicos, além de serem caracterizados por práticas proselitistas frente a irmãos e irmãs de outras tradições religiosas de nosso país, professem no presente momento a participação em coalizões religiosas de composição profundamente suspeita do ponto de vista moral, cujos fins dizem respeito ao destino político do Brasil. Vigoraria aí o princípio apontado por Rubem Alves (1987, p. 27-28) de que “em tempos difíceis os inimigos fazem as pazes”? Com o exposto, desejamos fazer notória a separação entre os interesses ideológicos de tais coalizões e os valores radicados no Evangelho. Por não representarem a prática cotidiana de grande fração de pastores e igrejas batistas brasileiras, tais coalizões deixam claro sua intenção e seu fundo ideológico, porém, bem pouco evangélico. Logrado o êxito buscado, as igrejas e os pastores batistas comprometidos com as coalizões “antipetistas” dariam continuidade à prática ecumênica e ao diálogo fraterno com a Igreja Católica, assim como com as demais denominações evangélicas e tradições religiosas brasileiras? Ou logrado o êxito perseguido, tais igrejas e pastores retornariam à postura de gueto e proselitismo que lhes marcam histórica e tradicionalmente?

2. Como entidade preocupada e atuante em face da injustiça social que campeia em nosso país desde seu “descobrimento”, a Aliança de Batistas do Brasil sente-se na obrigação de contradizer o discurso que atribui ao PT a emergente “legalização da iniquidade”. Consideramos muito estranho que discursos como esse tenham aparecido somente agora, 30 anos depois de posicionamentos silenciosos e marcados por uma profunda e vergonhosa omissão diante da opressão e da violência a liberdades civis, sobretudo durante a ditadura militar (1964-1985). Estranhamos ainda que tais discursos se irmanem com grupos e figuras do universo político-evangélico maculadas pelo dinheiro na cueca em Brasília, além da fatídica oração ao “Senhor” (Mamon?). Estranhamos ainda que tais discursos não denunciem a fome, o acúmulo de riqueza e de terras no Brasil (cf. Isaías 5,8), a pedofilia no meio católico e entre pastores protestantes, como iniquidades há tempos institucionalizadas entre nós. Estranhamos ainda que tais discursos somente agora notem a possibilidade da legalização da iniquidade nas instituições governamentais, e faça vistas grossas para a fatídica política neoliberal de FHC, além da compra do congresso para aprovar a reeleição. Estranhamos que tais discursos não considerem nossos códigos penal e tributário como iniquidades institucionalizadas. Os exemplos de como a iniquidade está radicalmente institucionalizada entre nós são tantos que seriam extenuantes. Certamente para quem se domesticou a ver nas injustiças sociais de nosso Brasil um fato “natural”, ou mesmo como a “vontade de Deus”, nada do mencionado antes parece ser iníquo. Infelizmente!

3. Como entidade identificada com o rigor da crítica e da autocrítica, desejamos expressar nosso descontentamento com a manipulação de imagens e de informações retalhadas, organizadas como apelo emocional e ideológico que mais falseia a realidade do que a apreende ou a esclarece. Textos, vídeos, e outros recursos de comunicação de massa, devem ser criteriosamente avaliados. Os discursos difamatórios tais como os que se dirigem agora contra o PT quase sempre se caracterizam por exemplos isolados recortados da realidade. Quase sempre, tais exemplos não são representativos da totalidade dos grupos e das ideologias envolvidas. Dito de forma simples: uma das armas prediletas da difamação é a manipulação, que se dá quase sempre pelo uso de falas e declarações retiradas do contexto maior de onde foram emitidas. Em lugar de estratégias como essas, que consideramos como atentados à ética e à inteligência das pessoas, gostaríamos de instigar aos pastores, igrejas, demais grupos eclesiásticos e civis, o debate franco e aberto, marcado pelo respeito e pela honestidade, mesmo que resultem em divergências de pensamento entre os participantes.

4. A Aliança de Batistas de Brasil é uma entidade identificada com a promoção e a defesa da vida para toda a sociedade humana e para o planeta. Mas consideramos também que é um perigo quando o discurso de defesa da vida toma carona em rancores de ordem política e ideológica. Consideramos, além disso, como uma conquista inegociável a laicidade de nosso estado. Por isso, desconfiamos de todo discurso e de todo projeto que visa (re)unir certas visões religiosas com as leis que regem nossa sociedade. A laicidade do estado, enquanto conquista histórica, deve permanecer como meio de evitar que certas influências religiosas usurpem o privilégio perante o estado, e promova assim a segregação de confissões religiosas diferentes. É mister recordar uma afirmação de um dos grandes referenciais teológicos entre os batistas brasileiros, atualmente esquecido: “Os batistas crêem na liberdade religiosa para si próprios. Mas eles crêem também na igualdade de todos os homens. Para eles, isso não é um direito; é uma paixão. Embora não tenhamos nenhuma simpatia pelo ateísmo, agnosticismo ou materialismo, nós defendemos a liberdade do ateu, do agnóstico e do materialista em suas convicções religiosas ou não-religiosas” (E. E. Mullins, citado por W. Shurden). Nossa posição está assentada na convicção de que o Evangelho, numa dada sociedade, não deve se garantir por meio das leis, mas por meio da influência da vida nova em Jesus Cristo. Não reza a maior parte das Histórias Eclesiásticas a convicção de que a derrota do Cristianismo consistiu justamente em seu irmanamento com o Império Romano? Impor a influência de nossa fé por meio das leis do Estado não é afirmar a fraqueza e a insuficiência do Evangelho como “poder de Deus para a salvação de todo o que crê”? No mais, em regimes democráticos como o Estado brasileiro, existem mecanismos de participação política e popular cuja finalidade é a construção de uma estrutura governamental cada vez mais participativa. Foi-se o tempo em que nossa participação política estava confinada à representatividade daqueles em quem votamos.

5. A Aliança de Batistas do Brasil se posiciona contra a demonização do PT, levando em consideração também que tal processo nega o legado histórico do Partido dos Trabalhadores na construção de um projeto político nascido nas bases populares e identificado com a inclusão e a justiça social. Os que afirmam o nascimento de um “império da iniquidade”, com uma possível vitória do PT nas atuais eleições, “esquecem” o fundamental papel deste partido em projetos que trouxeram mais justiça para a nação brasileira, como, por exemplo: na reorganização dos movimentos trabalhistas, ainda no período da ditadura militar, visando torná-los independentes da tutela do Estado; na implantação e fortalecimento do movimento agrário-ecológico dos seringueiros do Acre pela instalação de reservas extrativistas na Amazônia, dirigido, na década de 1980, por Chico Mendes; nas ações em favor da democracia, lutando contra a ditadura militar e utilizando, em sua própria organização, métodos democráticos, rompendo com o velho “peleguismo” e com a burocracia sindical dos tempos varguistas; nas propostas e lutas em favor da Reforma Agrária ao lado de movimentos de trabalhadores rurais, sobretudo o MST; no apoio às lutas pelos direitos das crianças, adolescentes, jovens, mulheres, homossexuais, negros e indígenas; e na elaboração de estratégias, posteriormente transformadas em programas, de combate à fome e à miséria. Atualmente, na reta final do governo de Luiz Inácio Lula da Silva, vemos que muita coisa desse projeto político nascido nas bases populares foi aplicado. O governo Lula caminha para seu encerramento apresentando um histórico de significativas mudanças no Brasil: diminuição do índice de desemprego, ampliação dos investimentos e oportunidades para a agricultura familiar, aumento do salário mínimo, liquidação das dívidas com o FMI, fim do ciclo de privatização de empresas estatais, redução da pobreza e miséria, melhor distribuição de renda, maior acesso à alimentação e à educação, diminuição do trabalho escravo, redução da taxa de desmatamento etc. É verdade que ainda há muito a se avançar em várias áreas vitais do Brasil, mas não há como negar que o atual governo do PT na Presidência da República tem favorecido a garantia dos direitos humanos da população brasileira, o que, com certeza, não aconteceria num “império de iniquidade”. Está ficando cada vez mais claro que os pregadores que anunciam dos seus púpitos o início de uma suposta amplitude do mal, numa continuidade do PT no Executivo Federal, são os que estão com saudade do Brasil ajoelhado diante do capital estrangeiro, produzindo e gerenciando miséria, matando trabalhadores rurais, favorecendo os latifundiários, tratando aposentados como vagabundos, humilhando os desempregados e propondo o fim da história.

Enfim, a Aliança de Batistas do Brasil vem a público levantar o seu protesto contra o processo apelatório e discriminador que nos últimos dias tem associado o Partido dos Trabalhadores às forças da iniquidade. Lamentamos, sobretudo, a participação de líderes e igrejas cristãs nesses discursos e atitudes que lembram muito a preparação das fogueiras da inquisição.

Maceió, 10 de setembro de 2010.
Pastora Odja Barros Santos - Presidente

terça-feira, 7 de setembro de 2010

As parábolas sobre o reino de Deus em Lucas (final)

Handall Fabrício Martins

Lucas 21.28-33 – a proximidade do reinado de Deus:

Segundo Kümmel, à luz de Marcos 13.30 e Mateus 10.23, “não se pode negar que Jesus esperou por uma irrupção temporalmente imediata do reino de Deus”, apesar de se terem conservado pouquíssimas palavras de Jesus nesse sentido. O próprio Jesus acentuou que ninguém, exceto o Pai, tem conhecimento da data exata da irrupção do reino de Deus. Ao anunciar a iminência do reino de Deus, Jesus não considerou importante a data do acontecimento – aliás, ela é rejeitada em Lucas 17.20s – mas interessou-lhe o fato de que o reino de Deus está prestes a irromper.

A esperança de Israel na época era de que, no futuro, Deus edificaria seu senhorio como rei sobre o seu povo de Israel de forma visível a todas as nações. Falava-se não da vinda de Deus como rei, mas na manifestação do reino de Deus. “Ao falar da iminente vinda do reinado de Deus, Jesus portanto toma uma concepção da esperança de salvação do povo judeu”.

A resposta de Jesus à pergunta de João Batista sobre se ele (Jesus) era aquele que estava para vir faz deduzir que, em sua ação e pregação, Jesus viu se cumprirem promessas do livro de Isaías (Is 35.3-6; 61.1), o que devia servir de sinal para João Batista, para que reconhecesse o cumprimento da promessa salvífica do fim dos tempos. A resposta afirmativa de Jesus à indagação cheia de dúvida do Batista foi dada apontando para as suas (de Jesus) ações e palavras significando o acontecimento salvífico do fim dos tempos. É nesse sentido que Jesus chama os discípulos de bem-aventurados por presenciarem tudo o que estavam presenciando. “O acontecimento escatológico que está ocorrendo no presente também se relaciona diretamente com o reino de Deus”.

Para Bultmann, Jesus tem a certeza de que o presente éon (mundo), dominado por Satanás e seus demônios, chegou ao fim, o que se confirma pelo resumo de sua pregação em Marcos 1.15: “cumpriu-se o tempo e o reino de Deus está próximo”. Jesus assume a imagem apocalíptica do futuro, mas a ênfase está na certeza com que afirma: “O tempo chegou! O reino de Deus está irrompendo! O fim está aí!”. É nesse sentido que ele chama de bem-aventurados os olhos que viam o que se operava por meio dele. Todavia, o reino de Deus não é ainda presente; ele está chegando. O ser humano não pode acelerar o curso estabelecido por Deus, seja pela piedade (conforme os fariseus), seja pela revolução (conforme os zelotes).


segunda-feira, 30 de agosto de 2010

As parábolas sobre o reino de Deus em Lucas (4)

Handall Fabrício Martins

Lucas 17.20-21 – o reinado de Deus está entre vós:

Segundo Jeremias, este dito é ocasionado pela pergunta dos fariseus acerca do tempo da vinda da basileia. Jesus responde com duas sentenças negativas (que dizem que não se pode calcular previamente o momento da revelação da basileia, nem se pode fixar o seu lugar), e uma positiva (que o reino de Deus está – ou estará – entre vós).

Essas palavras de Jesus podem receber duas interpretações: pode-se pensar a basileia tanto no tempo presente (caso em que “no meio de vós” se referiria à presença de Jesus) ou no tempo futuro. Devem-se interpretar os versículos 20 a 24 paralelamente: a negativa do 21a corresponde à negativa do 23, bem como a afirmativa do 21b corresponde à do 24 – os vv. 21 e 24 são paralelos e se devem interpretar conjuntamente. O v. 21b deve, portanto, como o v. 24, ser entendido e traduzido escatologicamente: ”(...) estará (repentinamente) no meio de vós”.

Segundo Bultmann, existem os sinais dos tempos; não os da fantasia apocalíptica, pois “o reinado de Deus não vem de tal modo que se possa prevê-lo; também não se pode dizer: ‘Ei-lo aqui, ei-lo ali!’, pois eis que o reinado de Deus está no meio de vós (de um só golpe)!” (Lc 17.21); antes, os sinais dos tempos são o próprio Jesus, seu aparecimento, sua atuação e pregação. Jesus quis dizer que as profecias de salvação (Is 35.5s; 29.18s; 61.1) começavam a se cumprir já com seus próprios feitos milagrosos.


terça-feira, 24 de agosto de 2010

As parábolas sobre o reino de Deus em Lucas (3)

Handall Fabrício Martins

Lucas 16.16 – todos precisam se esforçar para entrar no reino de Deus:

Segundo J. Jeremias, citando F.W. Danker, o enigma dessas palavras de Jesus pode ser resolvido se tomarmos a designação de “pecadores” dada pelos adversários de Jesus aos discípulos dele, os quais forçavam a entrada nos recintos santos, reservados aos “piedosos”. Os discípulos são intrusos violentos.

Segundo Kümmel, “dificilmente pode-se aceitar que Lucas não tenha deturpado o texto original deste dito a partir do seu ponto de vista condicionado pela época da igreja. A versão mais antiga de Mt 11.12 [...] não pode ser interpretada no sentido de um esforço louvável da parte do homem em alcançar o reino de Deus. Na opinião de Jesus, o esforço humano na verdade não pode acelerar, nem deter a vinda do reino de Deus”.


quarta-feira, 18 de agosto de 2010

As parábolas sobre o reino de Deus em Lucas (2)

Handall Fabrício Martins


Lucas 11.14-23 – os demônios são expulsos e o reinado de Deus chegou:

Para Joachim Jeremias, as narrativas dos Evangelhos a respeito das curas de enfermidades malignas e de expulsão de demônios não são apenas irrupções isoladas no reino de Satanás: são manifestações da aurora do tempo salvífico e do começo da aniquilação de Satanás (cf. Mc 1.24). É o que afirma Lucas 11.20. Cada expulsão de um demônio operada por Jesus significa uma antecipação da hora em que Satanás será visivelmente dominado. O mesmo vale para as expulsões demoníacas realizadas pelos discípulos (Mt 10.7-8; Lc 10.17-18).

Segundo Kümmel, Lucas 6.20 é uma afirmação paradoxal: os judeus esperavam que quando o reino de Deus se instaurasse, o poder de Deus se tornaria visível: o príncipe dos demônios seria aprisionado por aquele que trouxesse a salvação escatológica. No entanto, somente a autoridade sobre os demônios faz com que Jesus afirme que em suas ações irrompeu o vindouro reino de Deus, a salvação esperada para o fim dos tempos já está se concretizando no presente.

Para Bultmann, o domínio de Satanás está ruindo agora, pois “vi Satã cair do céu como um raio” (Lc 10.18). Jesus considera que o reino de Deus já irrompe no fato de ele expulsar, pelo poder de Deus que o preenche, os demônios, aos quais atribui, como acontecia em seu tempo, várias doenças (Lc 11.20).


sábado, 7 de agosto de 2010

A nova reforma protestante

Siga os links e confira, no Pavablog, matéria ainda não publicada, e que sairá na revista Época de 09/08. Vale a pena conferir.



quarta-feira, 4 de agosto de 2010

As parábolas sobre o reino de Deus em Lucas (1)

Handall Fabrício Martins


Lucas 6.20 – o reino de Deus é dos pobres (cf. Tg 2.5):

Segundo Joachim Jeremias, cabe ressaltar, primeiramente, que o reinado de Deus era o tema central da proclamação pública de Jesus, dada a frequência com que ocorre basileia nos ditos sinóticos de Jesus. A palavra hebraica correspondente ao grego basileia é malkut ou malkuta, que não se entende abstratamente, mas como em processo de realizar-se. Não é um conceito espacial nem estático, mas dinâmico: é a soberania real de Deus em ação, contra toda soberania humana real ou qualquer outra no céu e na terra. Sua marca principal é a de que Deus está realizando o ideal da justiça real, sempre ansiado, mas nunca cumprido; não uma aplicação imparcial do direito, mas a proteção aos desamparados, incluindo os pobres. Jesus empregou o termo no seu sentido escatológico, como de um evento futuro (Mt 6.10; Lc 11.2). Pode-se até dizer que, quando Jesus fala da basileia, ele pensa quase sempre ao mesmo tempo no juízo final que a precederá (Mc 9.43-48); designa o tempo da salvação, a consumação do mundo, a reconstituição da comunhão de vida entre Deus e o homem, a hora escatológica de Deus, a vitória de Deus.

Ao que parece, a oferta da salvação feita por Jesus aos pobres causou escândalo, e os que superam esse escândalo são bem-aventurados, o que frisa a importância da sentença “aos pobres é anunciada a boa nova” (cf. Lc 7.22,23). Eis o coração da pregação de Jesus, que se confirma na mesma declaração em forma de promessa, e que abre a proclamação escatológica das bem-aventuranças: “bem-aventurados os pobres” (Lc 6.20).

Mas quem são os pobres a quem Jesus trouxe as boas-novas?

Eram os “publicanos e pecadores”, ou “publicanos e prostitutas”, ou simplesmente “pecadores” (Mc 2.16; Mt 21.32; Lc 15.2). O desprezo subjacente nessas designações mostra que elas foram forjadas pelos adversários de Jesus. “Pecador” não designava simplesmente o que desprezava os mandamentos de Deus, mas também o que exercia uma profissão desprezada, seja por ela levar à imoralidade ou à desonestidade.

Os seguidores de Jesus também são chamados de “pequeninos” (Mc 9.42), ou “os menores” (Mt 25.40), ou “os singelos” (Mt 11.25), estes últimos contrapostos aos “prudentes e sábios”. Aqui, designam-se os discípulos de Jesus como homens que não tinham educação religiosa, a única possível no judaísmo palestinense da época, o que os fazia ser considerados ignorantes, atrasados e mesmo sem piedade. Novamente o desprezo associado a esses termos faz supor que eles tenham sido cunhados pelos adversários de Jesus. Em suma, os discípulos de Jesus eram os difamados e ignorantes, aos quais, segundo as convenções da época, estava fechado o acesso à salvação. Lucas refere-se a pobres de fato, mas não simplesmente aos sem posses, mas àqueles que por serem discípulos de Jesus passam por privações e perseguições.

Mas como Jesus teria empregado o termo? A quem se referia?

Mateus 11.5 é citação de Isaías 61.1-3, entendida como palavra profética, onde o conceito “pobres” é explicado por uma série de expressões paralelas: “os de coração quebrantado”, “os que se acham presos (à culpa?)”, “os acorrentados”, “os que estão tristes”, “os que estão com o espírito angustiado”. Os “pobres”, portanto, são os oprimidos em sentido muito geral: são os opressos, os que não podem se defender, os desesperados, os sem perspectiva de salvação, os que dependem inteiramente de Deus, os necessitados, os que passam fome e sede, os nus e os estrangeiros, os doentes e os prisioneiros (Mt 25.31-46). Também abarca os que choram, os trabalhadores sujeitos a trabalho pesado, os que carregam fardos, os últimos, os singelos, os perdidos, os pecadores. Lucas enfatiza a opressão externa, ao passo que Mateus frisa a angústia interna. Jesus olha com infinita misericórdia para esses mendigos perante Deus.

Ao sentar à mesa com “pecadores”, Jesus não só inclui os excluídos, como também corrobora, com seus atos (de Jesus), e de maneira impressionante, o que sua palavra já proclamava: o anúncio do perdão, a expressão mais palpável da mensagem do amor redentor de Deus. São refeições escatológicas, celebrações antecipatórias do banquete salvífico do fim dos tempos (Mt 8.11). Jesus também anuncia o perdão ao hospedar-se na casa de um publicano (Lc 19.5). A salvação é destinada aos pecadores, não aos justos. É nesse sentido que devemos entender Mateus 21.31, que diz que publicanos e prostitutas “precederão” os piedosos no reinado de Deus, ou seja, os piedosos (presunçosos) ficarão de fora. O fim dos tempos trará uma inversão das relações, evidenciando a ilimitada soberania e misericórdia de Deus. Essa bondade além de toda compreensão é júbilo e alegria para os pobres: eles recebem uma riqueza em vista da qual todos os demais valores se esvaem (Mt 13.44-46); vivenciam algo que jamais esperavam – Deus os acolhe, ainda que estejam de mãos vazias. O próprio Jesus se rejubila com eles (Mt 11.25).

O meio ambiente de Jesus baseava o relacionamento com Deus no comportamento moral do ser humano. Na medida em que o Evangelho não faz isso, está mexendo nos fundamentos da religião. Daí o escândalo causado por Jesus em seus opositores. Ora, somente os carregados de culpa (cônscios disso) é que podem avaliar o que significa remissão da culpa: sua gratidão é sem limites (Lc 7.36-50). Diferente é a atitude dos “piedosos”: aos olhos de Jesus, nada separa tanto o ser humano de Deus quanto uma piedade segura de si mesma. Contudo, na esfera do direito divino, os pobres não são só objeto do amor, mas eles próprios são confrontados com a exigência.

A proclamação de Jesus aos pobres é no sentido de que não é mais tempo de andar triste e jejuar; agora é o tempo da alegria como a que se revela num casamento (Mc 2.18-22).


(continua)

terça-feira, 27 de julho de 2010

Onde está a verdadeira crise da Igreja

Leonardo Boff


A crise da pedofilia na Igreja romano-católica não é nada em comparação à verdadeira crise, essa sim, estrutural, crise que concerne à sua institucionalidade histórico-social. Não me refiro à Igreja como comunidade de fiéis. Esta continua viva apesar da crise, se organizando de forma comunitária e não piramidal como a Igreja da Tradição. A questão é: que tipo de instituição representa esta comunidade de fé? Como se organiza? Atualmente, ela comparece como defasada da cultura contemporânea e em forte contradição com o sonho de Jesus, percebida pelas comunidades que se acostumaram a ler os envangelhos em grupos e então a fazer a suas analises.

Dito de forma breve mas não caricata: a instituição-Igreja se sustenta sobre duas formas de poder: um secular, organizativo, jurídico e hierárquico, herdado do Império Romano e outro espiritual, assentado sobre a teologia política de Santo Agostinho acerca da Cidade de Deus que ele identifica com a instituição-Igreja. Em sua montagem concreta não é tanto o Evangelho ou a fé cristã que contam, mas estes poderes, considerados como um único "poder sagrado" (potestas sacra) também na forma de sua plenitude (plenitudo potestatis) no estilo imperial romano da monarquia absolutista. César detinha todo o poder: político, militar, jurídico e religioso. O Papa, semelhantemente detém igual poder: "ordinário, supremo, pleno, imediato e universal" (canon 331), atributos só cabíveis a Deus. O Papa institucionalmente é um César batizado.

Esse poder que estrutura a instituição-Igreja foi se constituindo a partir do ano 325 com Imperador Constantino e oficialmente instaurado em 392 quando Teodósio, o Grande (+395) impôs o cristianismo como a única religião de Estado. A instituição-Igreja assumiu esse poder com todos os títulos, honrarias e hábitos palacianos que perduram até os dias de hoje no estilo de vida dos bispos, cardeais e papas.

Esse poder ganhou, com o tempo, formas cada vez mais totalitárias e até tirânicas, especialmente a partir do Papa Gregório VII que em 1075 se autoproclamou senhor absoluto da Igreja e do mundo. Radicalizando, Inocêncio III (+1216) se apresentou não apenas como sucessor de Pedro mas como representante de Cristo. Seu sucessor, Inocêncio IV(+1254), deu o último passo e se anunciou como representante de Deus e por isso senhor universal da Terra que podia distribuir porções dela a quem quisesse, como depois foi feito aos reis de Espanha e Portugal no século XVI. Só faltava proclamar Papa infalível, o que ocorreu sob Pio IX em 1870. O circulo se fechou.

Ora, este tipo de instituição encontra-se hoje num profundo processo de erosão. Depois de mais de 40 anos de continuado estudo e meditação sobre a Igreja (meu campo de especialização) suspeito que chegou o momento crucial para ela: ou corajosamente muda e assim encontra seu lugar no mundo moderno e metaboliza o processo acelerado de globalização e ai terá muito a dizer, ou se condena a ser uma seita ocidental, cada vez mais irrelevante e esvaziada de fiéis. O projeto atual de Bento XVI de "reconquista" da visibilidade da Igreja contra o mundo secular é fadado ao fracasso se não proceder a uma mudança institucional. As pessoas de hoje não aceitam mais uma Igreja autoritária e triste como se fosse ao próprio enterro. Mas estão abertas à saga de Jesus, ao seu sonho e aos valores evangélicos.

Esse crescendo na vontade de poder, imaginado ilusoriamente vindo diretamente de Cristo, impede qualquer reforma da instituição-Igreja, pois tudo nela seria divino e intocável. Realiza-se plenamente a lógica do poder, descrita por Hobbes em seu Leviatã: "o poder quer sempre mais poder, porque não se pode garantir o poder senão buscando mais e mais poder". Uma instituição-Igreja que busca assim um poder absoluto fecha as portas ao amor e se distancia dos sem-poder, dos pobres. A instituição perde o rosto humano e se faz insensível aos problemas existenciais, como da família e da sexualidade.

O Concílio Vaticano II (1965) procurou curar este desvio pelos conceitos de Povo de Deus, de comunhão e de governo colegial. Mas o intento foi abortado por João Paulo II e Bento XVI que voltaram a insistir no centralismo romano, agravando a crise.

O que um dia foi construído pode ser num outro, desconstruído. A fé cristã possui força intrínseca de nesta fase planetária encontrar uma forma institucional mais adequada ao sonho de seu Fundador e mais consentânea ao nosso tempo.


sexta-feira, 23 de julho de 2010

QUANDO A BÍBLIA FAZ MAL

Caio Fábio D'Araújo Filho


Sempre que se obedece à Escritura por causa dela mesma, se está cedendo à tentação do Diabo!

Não é de estranhar, portanto, que o pai da fé, Abraão, tenha vivido pela fé na Palavra antes de haver Escritura, mostrando-nos assim, que a Palavra precede a Escritura.

A fé vem pelo ouvir-escutar-crer-render-se à Palavra.

E a pregação só é Palavra se o Espírito estiver soprando. Do contrário, é só prega-ação!

E a pregação que não é Palavra é apenas estudo bíblico, podendo gerar mais doença do que libertação.

A grande tentação é fazer a Escritura se passar por Palavra. As Escrituras se iluminam como a Palavra somente quando aquele que a busca tem como motivação o encontro com a Palavra de Deus. Ou quando o Deus da Palavra fala antes ao coração!

A Bíblia é o Livro.

A Escritura é o Texto.

A Palavra É!

“Escritura” sem Deus é apenas um texto religioso aberto à toda sorte de manipulações!

No genuíno encontro com Deus e com a Palavra, a Escritura vem depois.

Sim! A Escritura vem bem depois!

O processo começa com a testificação do Espírito — pelo testemunho da Palavra de que somos filhos de Deus (Atos 16:14; Romanos 8:14-17; 10:17).

Depois, nos aproximamos da Escritura, pela Palavra. Então, salvos da “Escritura” pela Palavra, estudamo-la buscando não o seu poder ou o seu saber, mas a “revelação” imponderável acerca da natureza e da vontade de Deus, que daquele “encontro”—entre a Escritura, a Palavra e o Espírito — pode proceder.

Para tanto, veja João 5:39-40, onde o exame das Escrituras só se atualiza como vida se acontecer em Cristo.

Um exemplo do que digo é a tentação de pular do Pináculo do Templo. Tinha uma “base bíblica”— se levarmos em conta a Escritura como sendo a Palavra. Mas o que Jesus identificou ali foi a Escritura sem a Palavra.

Um ser pré-disposto ao sucesso teria pulado do Pináculo em “obediência” à Escritura e à sua literalidade, violando, para sua própria morte, a Palavra.

Sim! Estava escrito.

Porém, não estava dito!

Ora, é em cima do que está escrito mas não está dito, que não só cometemos “suicídios”, mas também “matamos” aqueles que se fazem “discípulos” de nossa arrogância, os quais, motivados pelas nossas falsas promessas, atiram-se do Pináculo do Templo abaixo.

E é também por causa desse tipo de obediência à letra da Escritura que nós morremos.

A letra mata!

Olhamos em volta e vemos o Livro de Deus em todas as prate-Lei-ras. Vemos o povo carregando-o sob o braço e percebemos que eles são apenas “consumidores de Bíblias”.

Vemos seus lideres e os percebemos, muitas vezes, apenas como “mercadejadores” de Bíblias e dos “esquemas” e “programas” que se derivam do marketing que oferece e vende sucesso em “pacotes em nome de Jesus”.

Sim! E isso tudo não porque nos faltem Bíblias e muito menos acesso à Palavra.

O que nos falta é buscar a Deus por Deus (sic!).

O que nos falta é sermos filhos amados de Deus não porque isto nos dá status Moral sobre uma sociedade que não é mais perdida que a própria “igreja”, coletivamente falando, é claro!

O que nos falta é a alegria da salvação, sendo essa alegria apenas fruto de gratidão.

É somente na Graça que a leitura da Bíblia tem a Palavra para o coração humano. Sem a iluminação do Espírito a Bíblia é apenas o mais fascinantes de todos os best-sellers.


terça-feira, 6 de julho de 2010

A TEOLOGIA NA AMÉRICA LATINA: ANÁLISE DE CONJUNTURA

Handall Fabrício Martins

(final)


Teologia da libertação: algumas conclusões

A reflexão teológica explícita só pode ser feita em mutirão. É produzida de um modo novo, em geral extra-acadêmico, militante e popular. A totalidade da Bíblia é interpelada segundo a ótica do oprimido. A chave hermenêutica é cristológica. Para ser genuína, a fé tem de estar comprometida com o reino de Deus. O exemplo vivo são a obra e o sacrifício de Cristo. A ressurreição de Jesus tem um significado absolutamente libertador. Transformando o não-homem em homem pleno, e o homem pleno em homem novo, o cristianismo já não pode mais ser chamado de “ópio do povo”. A salvação eterna, ofertada por Deus, passa pelas libertações históricas. Deus é reapresentado com uma nova face: o libertador dos oprimidos e dos humilhados.

O povo de Deus sempre foi solidário com relação às angústias e as esperanças dos oprimidos. Através da libertação, surge a imagem do Deus revelado em Jesus Cristo. Deus quer sustentar o pobre e oprimido. O verdadeiro culto a Deus tem de vir acompanhado de justiça. O cristão enxerga no ser humano que está distante um próximo, e, no que está próximo, um irmão. As pessoas serão julgadas por suas atitudes de aceitação ou rejeição dos pobres (Mt 25.31-46). O cristão tem de estar aberto para Deus e se solidarizar com seu semelhante. O cristão deve servir de um modo desinteressado aos outros.

A fé cristã também precisa ter um fator de transformação da sociedade. A todos os que são discriminados deve ser anunciado que Deus os ama de modo preferencial, independente de sua situação moral ou pessoal. Deus nunca quis a injustiça e a pobreza. Os que são carentes dos recursos necessários à sua subsistência vivem nessa situação porque foram espoliados por um processo de exploração do trabalho. Quem que se torna disponível para Deus também se torna um instrumento do Reino. A solidariedade o leva a lutar contra a pobreza injusta. “A teologia da libertação é resposta à problemática pastoral da Igreja, especialmente colocada no contexto latino-americano, em que a luta pela libertação constitui uma exigência fundamental do Evangelho e uma antecipação do Reino de Deus” (CATÃO, apud GUIMARÃES, p.1).

Os conceitos teológicos não podem ser entendidos de forma reducionista. A salvação eterna, ofertada por Deus, deve passar por processos históricos de salvação. A verdadeira evangelização se empenha para que os pobres se tornem, de fato, Igreja. A comunhão é então redescoberta como o valor teológico estruturante. A Igreja transforma-se, assim, na comunidade dos fiéis que convivem em relações fraternas.

Se a teologia tradicional lançou mão de Platão e Aristóteles, então a teologia da libertação pode utilizar a análise marxista a fim de interpretar a realidade latino-americana. Não há neutralidade política. Quem se apresentar com a pretensão de neutralidade política, já estará concordando com a situação vigente; ou seja, estará apoiando a opressão instalada na sociedade. A função da Igreja não é definir os contornos da salvação, pois esta não é quantitativa (quem será salvo); é, antes, qualitativa (qual é a natureza da salvação).

Optando pelo caminho mais difícil, a teologia da libertação exige uma verdadeira conversão. Uma pessoa só consegue entendê-la quando ela compreende e participa ativamente no processo concreto e histórico da libertação dos oprimidos. Partindo da Bíblia, compreender significa amar e deixar-se envolver totalmente. Sem o compromisso com os oprimidos, a teologia acaba se tornando simples literatura. Deve se estabelecer uma ligação viva com a prática viva.

Principais contribuições da teologia da libertação: conscientização política; apropriação da convicção de que para ser dono da história futura, é preciso conhecer a história passada; entendimento de que “a salvação de Deus não é um simples estado d’alma, nem, muito menos, uma salvação após a morte, mas uma libertação histórica, a ser desfrutada, aqui e agora, pela pessoa e pela sociedade” (GUIMARÃES, apud CATÃO, p.2).


Teologia da libertação: consolidação (1979-1988)

As punições impingidas pelo Vaticano a Leonardo Boff e Gustavo Gutierrez demonstram a oposição da cúpula católica à teologia da libertação. Em 1980, Oscar Romero, Arcebispo de San Salvador, é assassinado. Um teólogo católico do IRD declarou: “Os acontecimentos no Irã e na Nicarágua começaram a mostrar aos analistas políticos que há um perigo, quando fazem seus cálculos, de omitir o fator religioso, especificamente as idéias dos teólogos.” Em 1982, os assessores do presidente Reagan elaboram o “Documento de Santa Fé”, declarando que “a política externa americana deve começar a contra-atacar (e não apenas a reagir contra) a teologia da libertação”. Perante a opinião pública mundial, esse documento acabou por promover a teologia da libertação.

Em 1984, o Vaticano tornou pública a “Instrução sobre Certos Aspectos da Teologia da Libertação”. Esse documento reitera a “opção preferencial pelos pobres” e insiste em que os cristãos “se tornem envolvidos na luta por justiça, liberdade e dignidade humana”. Porém, adverte que a Igreja não deve ser negligente quanto à libertação do pecado. E lembra que milhões de pessoas tiveram suas liberdades básicas cerceadas por causa de “regimes totalitários e ateístas que chegaram ao poder por meios revolucionários e violentos, precisamente em nome da libertação do povo”. E o documento arremata: “A luta de classes como uma estrada em direção a uma sociedade sem classes é um mito que retarda as reformas e agrava a pobreza e a injustiça.”


Teologia da libertação: revisão, perspectivas e avanços (1989-)

Para João Batista Libânio, em termos políticos,

[...] os acontecimentos que mais profundamente tocaram à TdL foram a derrota do Sandinismo na Nicarágua e a queda do socialismo no Leste Europeu. A vitória sandinista tinha significado, de certa maneira, um traço de esperança e de concretização de muitas das reflexões que se faziam na TdL. Tinha sido uma revolução profundamente popular, libertária, em que a fé cristã desempenhara papel relevante. E tal fora possível porque já se tinha caminhado muito na reflexão teológica a respeito da relação entre fé e política, fé e compromisso, fé e revolução libertadora. Esse suporte teológico para os cristãos comprometidos com o processo nicaragüense, seja no tempo de luta revolucionária, como no de implantação de um sistema original fora dos moldes do socialismo real, tinha sido absolutamente fundamental. A derrota dos sandinistas nas eleições presidenciais levou os teólogos, sobretudo da América Central, a uma profunda revisão de suas análises e reflexões.

[a derrocada do socialismo] produziu dois fenômenos em relação à Tdl. Uma queda de interesse pela TdL, quer do grande público civil, quer do leitor médio, de um lado, e, do outro, uma certa situação incômoda por parte dos teólogos da libertação. O primeiro fenômeno manifestou-se na diminuição da procura da literatura da TdL, que chegou anos anteriores a ser altamente intensa e na dificuldade do prosseguimento com a publicação da coleção “teologia e libertação". O segundo fato se traduziu numa série de artigos de teólogos e cientistas sociais, que tentaram desvincular a crise do socialismo real com os ideais da TdL.

Já em termos eclesiais, segundo o mesmo Libânio,

Em termos eclesiais, estes últimos anos têm significado um duplo movimento antitético. De um lado, cresce um movimento conservador no interior da Igreja, sobretudo em nível de organização, e, de outro, as comunidades eclesiais de base, expressão maior de uma igreja junto às bases numa linha da libertação, continuam crescendo. Confirmam tal fato os Encontros Intereclesiais que prosseguem. Nos últimos tem crescido o número de seus participantes. Em Santa Maria, RS (1992) foram mobilizados 2.316 delegados vindos de todas as regiões do país numa proporção de 65,6% de leigos/as, sem falar de mais de mil membros das equipes de serviços e das famílias envolvidos no encontro. Em São Luiz do Maranhão (1997), estiveram representadas 240 igrejas particulares das 255 de todo o país (94%) com a presença de uns 60 bispos católicos. O número de delegados e de outros participantes atingiu uns 2.800. O conjunto dos Intereclesiais forneceu material suficiente para uma reflexão mais aprofundada.

Em termos teológicos, Libânio diz que:

[...] a teologia enfrenta uma revisão mais profunda de seu instrumental de análise. Na reunião dos teólogos da SOTER, em julho de 1990, os cientistas sociais defrontaram-se com o marco teórico marxista, que vinha sendo usado por muitos teólogos, ora em maior escala, ora em menor. Ficou claro que tal marco não só necessita ser ampliado, como também revisto em profundidade por causa de suas insuficiências, entre elas, da hipertrofia da classe em detrimento de aspectos culturais e sexuais da realidade, da incapacidade de analisar as relações de poder na Igreja adaptando análises da macro-sociedade, da carência de uma análise do estado, do desconhecimento de muitas novas realidades surgidas nesta nova fase do capitalismo, etc. Aponta como caminhos um uso maior da antropologia social, da sociologia das instituições, de métodos quantitativos, da teoria da ação (A. Touraine), etc.

Segundo Libânio, Frei Betto, a propósito do atual momento da teologia da libertação, diz que:

[...] analisando esse momento posterior à derrocada do socialismo, indica com muita lucidez algumas balizas. A teologia precisa retomar a questão da utopia libertadora em articulação com topias possíveis e realizáveis no mundo dos pobres. Necessita pensar o trabalho pastoral e elaborar reflexões em diálogo com os setores da classe média e com intelectuais, artistas, cientistas e formadores de opinião pública. A questão ecológica merece ser levada a sério na perspectiva do Terceiro Mundo e não ser julgada unicamente como problema de país rico. No campo da moral, deve-se estender à moral pessoal a ênfase dada até então à moral social. A TdL não pode ficar prisioneira dos conceitos de classes sociais, desconhecendo realidades como mulheres, crianças, negros e indígenas. A tecnologia de ponta abre novos horizontes e pressupostos à teologia até então não trabalhados suficientemente por nossos teólogos. A crise do socialismo coloca à teologia o dever ético de resgatar a esperança dos pobres e finalmente a TdL deve continuar a reflexão eclesiológica diante do problema da restauração eurocêntrica que coincide com a vitalidade da participação comunitária dos pobres.


Em 1999, a SOTER enfrentou o diálogo interdisciplinar com as ciências da natureza, de modo especial, com a cosmologia moderna, a astrofísica, as ciências biológicas. Perguntou-se, no Congresso da SOTER, pelos novos desafios epistemológicos, metodológicos e de conteúdo do diálogo interdisciplinar.

Segundo Libânio, os principais eixos-teses da teologia da libertação são:

a) de uma cristologia do Jesus histórico na perspectiva do seguimento e da identificação com o pobre passando por uma Trindade libertadora até uma pneumatologia incipiente. A cristologia latino-americana tem como traços a primazia: do elemento antropológico sobre o eclesiológico; do utópico sobre o fatual; do crítico sobre o dogmático; do social sobre o pessoal; da ortopráxis sobre a ortodoxia.

b) da salvação como libertação, passando por mediações na história até a criação de utopias em referência ao Reino sobretudo na luta pela vida.

c) de uma eclesiologia de experiências comunitárias a uma verdadeira eclesiogênese numa reinterpretação radical do poder e ministério na Igreja em relação com o Reino e com o mundo.

d) de uma concepção transformadora da ação do homem até a criação da nova terra e dos novos céus com abertura para a ecologia e para o problema da terra.

e) de uma teologia preocupada com as estruturas sociais para uma teologia aberta às culturas (etnias) em vista da real inculturação e inserção na dupla dimensão de prática e festa do povo latino-americano.

f) de um Deus revelador e libertador à pessoa de Jesus identificado com os pobres até o dom de sua vida (martírio).

g) de uma posição crítico-militante à aceitação crítica da religiosidade popular.

h) de uma concentração na teologia da práxis à busca de uma espiritualidade que a fundamente.

i) da presença discreta de elementos feministas, sobretudo no referente à mariologia para uma afirmação clara, explícita e ampla da teologia na ótica da mulher.

j) uma teologia em confronto com o capitalismo na perspectiva econômica.

k) da hegemonia da Igreja católica para uma situação religiosa plural.

l) além de continuar sendo uma teologia-sujeito passa também a teologia-objeto.

A teologia da libertação tem se reformulado. A metodologia já não é exclusivamente marxista, a espiritualidade está sendo revalorizada (a mística da luta) e o assistencialismo já é aceito para os excluídos. A teologia da libertação também teve que rever algumas coisas, como: a análise do sistema capitalista, o projeto socialista e as estratégias revolucionárias. Mas duas convicções permanecem: a experiência de Deus no pobre e o compromisso com o abandono da sociedade. A expansão do capitalismo neoliberal globalizado fez com que a miséria e a exclusão aumentassem. Mas, face à gigantesca crise cultural, os militantes da Igreja se fortaleceram em sua referência de fé e seu compromisso com os pobres.

A teologia da libertação tornou-se mais transigente. Está mais aberta a pontos de vista distintos, antes considerados “alienados”. A teologia da libertação não reivindica ser uma “teologia universal”, aplicável a quaisquer épocas e situações. Ela é uma teologia para a situação latino-americana contemporânea. Com efeito, os teólogos da libertação julgam a idéia de uma “teologia universal” uma perversão resultante da imposição do pensamento grego abstrato, em prejuízo do pensamento bíblico prático. Tal teologia “universal”, baseada apenas em verdades tidas como eternas, só pode ser estática e, no decurso do tempo, estéril. A teologia da libertação, antes, é um novo modo de fazer teologia.


A teologia protestante na segunda metade do século XX

Aqui se verificam a explosão pentecostal e, mais ultimamente, neopentecostal. A marca da teologia protestante neste período foi o conservadorismo, a partir do qual triunfou uma tendência à minimização da reflexão teológica e à supervalorização da fé pessoal, além de uma mentalidade dualista, dicotomizada, com radical polarização entre igreja e mundo, fé e política e entre Cristo e a cultura. Do ataque ao catolicismo passou-se mesmo a confrontar outras confissões protestantes e, depois, à condenação do “modernismo” ou “liberalismo” teológico. Apenas nos idos de 1960 é que alguns poucos teólogos se ocuparam de uma reflexão mais interessada nos problemas do homem de seu tempo, vertente esta que acabou sufocada. A teologia predominante era a dos missionários e, entre estes, os norte-americanos.

Mesmo mais tarde, quando a presença missionária se tornou mais fraca – conquanto continuasse a controlar a maioria dos seminários e editoras –, o que se verificou foi, praticamente, mera reprodução da teologia importada trazida pelos missionários. O mundo continuou a ser negado, rejeitado, prevalecendo a idéia de que, salvando-se a alma, o continente seria salvo. A reflexão bíblica é, basicamente, fruto da tensão entre o fundamentalismo e o modernismo teológicos. Ainda assim, e mesmo sob a vigilância das lideranças denominacionais, algum espaço foi conquistado nas décadas de 1960 e 1970, através da revista “Cristianismo y Sociedad” (ISAL), da “Faculdade Evangélica de Teologia”, de Buenos Aires, da “Fraternidade Teológica Latino-Americana” (FTL) e da Aliança Bíblica Universitária (ABU).

Não podemos deixar de mencionar a “teologia da missão integral” (TMI), amplamente desenvolvida em círculos evangelicais latino-americanos a partir do Pacto de Lausanne, realizado na cidade suíça de mesmo nome, em julho de 1974. A TMI revela sua novidade no fato de – como a teologia da libertação – também ser uma teologia contextualizada, referindo-se a um ambiente sócio-histórico e cultural específico. A TMI é teologia da liberdade teológica, histórica e eclesial. Seu objetivo é o bem-estar da vida no mundo, no conjunto da criação, pela via do conhecimento de Deus. É teologia evangelizadora. Seu protesto social e a busca da transformação da situação social da América Latina se dão pelo viés da fé. Ela é crítica no sentido de que não dispensa a suspeita e a análise conjuntural, valendo-se, também, do ferramental proporcionado pelas ciências sociais. Seu lema é “Chamando a Igreja toda para pregar o Evangelho todo ao mundo todo”.


REFERÊNCIAS

AZEVEDO, Israel Belo de. As cruzadas inacabadas. Introdução à história da igreja na América Latina. Rio de Janeiro: Editora Gêmeos, 1980.

DREHER, Martin N. A igreja latino-americana no contexto mundial. Coleção “Historia da Igreja”. 3 ed. São Leopoldo: Sinodal, 1999.

GUIMARÃES, Luiz Ernesto. A teologia da libertação e o contexto latino-americano. Disponível em: http://www2.uel.br/eventos/sepech/arqtxt/resumos- anais/LuizEGuimaraes.pdf

KLOPPENBURG, Boaventura. Bispo jubilar com suas vicissitudes eclesiais. Disponível em: http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/teo/article/viewFile/2731/2080

LIBÂNIO, João Batista. Panorama da teologia da América Latina nos últimos anos. Disponível em: http://www.servicioskoinonia.org/relat/229.htm

RÜCKERT, Paulo Roberto. Teologia Contemporânea. Apostila usada na disciplina “Teologia Contemporânea I” do curso de bacharel em teologia da Faculdade Unida de Vitória. Vitória: FUV, 2008.

_________, Paulo Roberto. Teologia Contemporânea. Apostila usada na disciplina “Teologia Contemporânea II” do curso de bacharel em teologia da Faculdade Unida de Vitória. Vitória: FUV, 2009.

VV.AA. História da teologia na América Latina. Série “Teologia em Diálogo”. São Paulo: Edições Paulinas, 1981.