"Falar com 'Deus' é oração (?!); já ouvi-lo responder... é esquizofrenia."

sexta-feira, 10 de agosto de 2012

Da sub-educação teológica de nossos jovens crentes


Osvaldo Luiz Ribeiro*

1. Segunda-feira dei aula de Teologia da Educação Cristã. A turma é híbrida - tem alunos de segundo período e alunos novos, de primeiro período. Você vem no embalo, com os alunos mais velhos (seis meses) e, súbito, o trem para na estação para pegar passageiros novos...

2. Em nenhuma disciplina do planeta, salvo aquelas que exigem pré-requisitos técnicos, isso seria um problema. Mas é teologia. Ninguém está, nunca, pronto para aulas acadêmicas de Teologia.

3. Na segunda, alguém já pergunta a um aluno antigo, depois da aula (escuta, esse professor é ateu?). Ontem, durante a aula de outro professor, perguntam a ele se o professor Osvaldo é crente...

4. Já falo sobre isso. Antes, comentar que é o eterno fluxo das novas fornadas. Todos os anos, alunos entram nas salas de teologia, vindos de suas respectivas EBD. O choque é inevitável, se você respeita a sua profissão de educar. Seis meses depois, já entenderam a coisa toda, um ano depois, começam eles mesmos a fazer os seus próprios questionamentos.

5. Mas as primeiras aulas, inevitavelmente, cabelos arrepiados, carnes trêmulas, ossos retesados, coração paralisado, susto...

6. Alunos novos de teologia...

7. Já disse aqui, outro dia, que considero criminoso o que se faz com os crentes. E o que eles mesmos deixam que façam com eles. Porque não se educam os crentes: se encabrestam. Pensar, nem pensar! Refletir, só a partir do dogma. Liberdade, só de falar mal dos outros, da religião dos outros, mas, para olhar para sua própria fragilidade, não.

8. São vítimas, coitados. E, todavia, vítimas que se tornam, algumas vezes, insuportáveis, porque se trata de uma situação de alienação engajada, a alma se torna violenta, o espírito, de Cruzada. Não são coisa com que se deva preocupar, mas quanto ao estado dessa mente, dessa alma, toda dor que se possa sentir por elas é pouco: estão aleijados, aviltados, violentados.

9. E usaram Deus, a fé e a Bíblia para isso...

10. Na sala de aula, não encontraram - muitas vezes! -, eco doutrinário. Mas isso não é o pior. Porque até poderiam encontrar eco doutrinário contrário à sua fé. No entanto, entrar numa sala de aula, você batista, e deparar-se com um calvinista a distribuir pérolas de Calvino apenas reforça o "jogo" da fé dogmática, o aluno batista faz-se ainda mais batista, ainda mais cruzado, ainda mais "fiel" - na verdade, ainda mais prisioneiro da "Ideia" que o controla e manipula 24 horas por dia...

11. Quando, todavia, ele encontra um professor, dois, três, que, em lugar de se pronunciarem desde uma posição doutrinária, posicionam-se fora do campo de atuação da doutrina teológica, assumem uma meta posição teórico-metodológica para, desde lá, analisar, como iguais, todas elas, todas as doutrinas, todos os dogmas, cristãos ou não, como fenômenos de cultura, fenômenos humanos, condição necessária para o estudo delas, aí, senhores, os "zumbis da fé" entram em colapso, porque, para eles - anotem: para eles - essa é uma posição de não-fé, de ateísmo, de apostasia...

12. Não entendem, mas entenderão, é uma questão de tempo - que o estudo e a pesquisa impõe a você uma meta-posição, a olhar as coisas desde fora, com o máximo de isenção e crítica possível. Mais ainda, não sabem nada de teologia, nada, nada vezes nada, e chegam em sala de aula como se soubessem tudo, porque a EBD lhes ensinou: seus pastores são criminosos, senhores, criminosos...

13. Aos novos alunos, eu diria, como disse, que devem fazer como Maria: guardem as coisas no coração, esperem, tenham paciência, estudem, leiam, reflitam, deem tempo ao tempo.

14. Aos demais, aos pastores, principalmente, eu diria que passou da hora de agir de modo humano com esse povo. Não é necessário acabar com as doutrinas, admito. Mas a catequese devia fazer-se no campo da pluralidade. Os meninos e as meninas "educados" (?) na Igreja deveriam aprender que essa doutrina assim e assim é representativa dessa igreja, mas não daquela, que, naquela, a doutrina é assim assado. Eles aprenderiam que o que têm na mão são tradições históricas, e que há outras, e, mais do que isso, que, acima de todas elas, se pode por-se a estudá-las como fenômeno humano.

15. Mas não: fazem-se de Deus os pastores, e inculcam na cabeça vitimada dos meninos e das meninas essas mesmas tradições, mas com o rótulo de verdade, de inquestionável verdade. Crime.

16. A educação teológica deve enfrentar essas situações - mas não porque isso faça parte da "educação" religiosa: é um acidente que poderia ser evitado. Mas acredito cada vez menos que será, porque, entra ano, sai ano, e lá se vão mais de 20, e a história se repete: a cada nova fornada, biscoitos cada vez mais assados... Ou menos. No ponto, um ou dois...

17. Ah, quase ia esquecendo de responder as duas perguntas: se sou ateu? Se ser ateu é recusar-se a repetir os credos, porque não os pode assumir como outra coisa que não tradição humana, e que como tal os reconhece e como tal os estuda, então sim. Se sou crente? Bem, o diabo é. Faz diferença?

*Osvaldo Luiz Ribeiro é doutor em teologia pela PUC-Rio e professor da Faculdade Unida de Vitória.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

Por que sou contra o Ensino Religioso nas escolas (2)

Outro texto provocante do Prof. Dr. Osvaldo Luiz Ribeiro, disponível em:
http://peroratio.blogspot.com.br/2012/07/2012530-voce-nao-aprendeu-foi-e-nada.html




Ele não aprendeu foi é nada!



1. Já escrevi sobre isso. Mas isso não sai de mim, da minha pele. Tenho que exorcizar esse demônio, e, então, escrevo de novo. Teologia e seu currículo...

2. Nos melhores currículos, mesmo nos mais dogmáticos, controladores e confessionais currículos, estão lá, uma, outra, ou todas: Antropologia, Sociologia, História, Psicologia - em pelo menos um, porque "eu" a coloquei lá, quando era Coordenador do Curso e estávamos montado o currículo MEC, Fenomenologia da Religião.

3. Mas não vou tão longe: ler Fenomenologia da Religião é covardia.

4. Mas se o teólogo estudou Antropologia, Sociologia e Psicologia, não precisava mais nada. Nunca mais - anotem: nunca mais (se ele de fato estudou essas disciplinas) -, ele faria teologia como antes, até mesmo ele pensaria como antes.

5. Com Antropologia, ele aprende que toda religião é igual, é fenômeno histórico e situado, desenvolvido na história e geograficamente localizado - fenômeno humano, por homens inventado.

6. Com Sociologia, ele aprende que a religião é um "fato social", e que molda e é moldada pelas pessoas, por suas idas e vindas na vida, pelas questões de família, de trabalho, de guerra, de amor, de vida e de morte. Fenômeno humano, por homens inventada.


7. Com Psicologia, ele aprende que a religião desenvolve-se na psiquê, na relação entre a consciência, a vontade, o desejo, o medo, e os mitos, os ritos, os homens sagrados. Fenômeno humano, por homens inventada.

8. Se estudasse Fenomenologia da Religião, então, saberia até os processos mediante os quais a religião e os deuses são criados pelos homens...

9. Mas ele leu apenas as três Maiores - e não precisa nada mais. Com elas, já seria suficiente para esvaziar de Deus e dos Deuses a sua teologia inteira, esvaziar de Deus a sua própria mente, seu discurso - para ele reconhecer que sempre que pensa, fala e ouve sobre Deus, é coisa de cultura, de sociedade e de mentes humanas.

10. Mas que nada! Ele lê, estuda, é aprovado, mas não aprende é coisa nenhuma. As respostas que deu na prova, mentiu-as, porque não as levou a sério jamais (talvez à noite, no travesseiro, naquele instante que ele se olha a si mesmo, nu na alma, e se chora a covardia?)...

11. Não, não aprendeu, não, porque só se aprende o que se torna você - e, se ele aprendesse Antropologia, Sociologia e Psicologia, elas se tornariam seu sangue e corpo, seu cabelo e unha - mas nada, são apenas nomes ocos, vazios, que ele até usa para os outros, para reduzir a religião dos outros a fenômenos humanos - ou do diabo! Mas a sua, a sua religião, não: ele a mantém longe delas, da Antropologia, da Sociologia e da Psicologia - ela, a religião dele, é Deus...

Teologia de avestruz

por Osvaldo Luiz Ribeiro*




1. Enfiar a cabeça no buraco e fingir que se resolveu tudo.

2. Mas o nome disso é sonegação de informação, manipulação e desonestidade.

3. Inventaram que, para ser pastor, precisa de curso de Teologia. Não se quer aprender nada, de fato. Se quer, apenas, legitimar uma "vocação". No fundo, os seminários pensam-se como centros de treinamentos pastorais, para reprodução das doutrinas da denominação.

4. Não se pode condenar essa perspectiva. Ela não está errada. Mas ela precisa ser mais honesta. Ela não pode dizer que ali se ensina Bíblia - é falsa a declaração. Ali se ensina a tradição denominacional, e nada mais do que isso. O problema é que cada denominação diz que ensina a Bíblia, de modo que, em seus centros de formação, essa retórica política se repete: aqui, nesse centro de formação, se ensina - e lá vem a dissonância: Evangelho e Bíblia. Não. Ali se ensinam as doutrinas e as regras da denominação, usando a Bíblia para isso.

5. Aí, vamos para a sala de aula.

6. Sala de aula é um negócio incontrolável. Pode ser o centro mais fascista que você imaginar, mais cedo ou mais tarde, alguma coisa em sala de aula é dita sem conformidade com o padrão.

7. Teologia e Bíblia então: imagina... Não há uma aula sem que alguma coisa fora dos eixos não seja dita, e isso em ambientes de máximo controle dogmático.

8. Imagina você o que não ocorre em ambientes mais arejados - e os há.

9. Bem, ainda que o ambiente seja arejado, o sujeito é um "vocacionado". Ele ouve e faz as contas - é a Teologia do ábaco, até aí. Ele pensa assim: se eu falar isso lá, vai todo mundo embora. E já anota que, aquilo, jamais dirá. Dia a dia ele vai ouvindo um monte de coisas que, na prática, desmonta outro monte de coisas que ele, vocacionado, juraria, diante de Deus, serem verdades - e eram mera tradição. No final do curso, ele já decidiu tudo que sonegará às pessoas que "pastoreará".

10. E sonegará.

11. Ele aprendeu certas coisas, mas não contará nada. Enfiará a cabeça no buraco e fingirá que o mundo é como ele diz que é - e isso dito desde o púlpito, pronto!...

12. Eu acho que isso acontece, porque ele, o vocacionado, agora pastor, olha nos olhos de Deus. Se ele olhasse nos olhos das pessoas, não teria coragem de mentir para elas. Mas, em nome de Deus, por Deus, e para Deus, a gente faz qualquer coisa. 

13. Já matamos!...

14. Sonegar informação é troco...

15. O problema é que as fogueiras eram acesas com as informações que começavam a circular...

*Osvaldo Luiz Ribeiro é doutor em teologia e professor da Faculdade Unida de Vitória/ES.
texto disponível:

Por que sou contra o Ensino Religioso nas escolas

Compartilho um texto bastante pertinente do Prof. Dr. Osvaldo Luiz Ribeiro, disponível em:


Se ele não aprendeu, como vai ensinar?

1. Sabe aquele aluno (religioso e, não poucas vezes, pastor) que não aprendeu absolutamente nada sobre Ciências Humanas, porque o que ele aprendeu de Antropologia, Sociologia e Psicologia, no curso de Teologia, ele vomitou dez minutos antes da formatura - como é que ele vai assumir uma classe de ENSINO RELIGIOSO, cuja "filosofia" é justamente as Ciências Humanas, vedado todo proselitismo e confessionalismo?

2. Ele vai mentir?

3. Mentir para si e para a criança?

4. Ele vai fazer de conta que o que ele diz todos os dias sobre as outras religiões é mentira, e que elas são todas iguais?

5. Ele vai esquecer que diz todos os dias que Candomblé, Umbanda, Espiritismo, Islamismo (tá na moda, em "missões") e qualquer outra religião são todas coisas do diabo?

6. Ele vai esquecer isso e mentir - para si e para as crianças?

7. Ou vai mentir para a sua função e seu dever e catequizar - que é a única coisa que ele sabe fazer?

8. Uma aluna me disse: professor, pior é quando a Coordenadora é crente...

9. O problema não é apenas a sala de aula - não é apenas o professor que se servirá do sistema para "pregar o Evangelho": a estrutura inteira da Escola, se estiver na mão de crente (e de católicos?), vai se tornar em Cruzada de Jesus.

10. Alguém duvida?

11. Esse aqui, não.

12. E tenham certeza, senhores, que todos os alunos que passarem pela minha classe, na pós-graduação de Ensino Religioso, vão ouvir isso e - acreditem - um bocado mais.

13. Podem me chamar de manipulador e liberal.

14. Melhor do que manipular crianças - sempre elas, em estado de vulnerabilidade: quando não lhes metem a mão nas intimidades, lhes metem a mão na alma...

domingo, 17 de junho de 2012

Enquanto isso, em Brasília (A nova sede da igreja no país - democracia evangélica)


Da "volta de Jesus" e do "temor a Deus"


Osvaldo Luiz Ribeiro*

1. Os alunos vão saber de cara que falo deles, da turma de hoje. A aula era de Hebraico, mas uma coisa traz a outra...


2. Por alguma razão, surgiu a conversa sobre a "volta de Jesus". Aí, brinquei: se Jesus voltar daqui a dez minutos, ainda assim... E, então, brinquei de novo, dizendo assim: faço uma aposta - se Jesus não voltar em dez minutos...

3. Uma aluna, querida toda vida, interpelou-me: brinca com isso, não professor. E, então, considerou que brincar com isso é falta de temor a Deus...

4. Estávamos em uma Faculdade. Algumas considerações são necessárias.

5. "Volta de Jesus". Sim, é uma doutrina das Igrejas. A maioria foge da questão de discutir o "como". Mas há livros à venda, com todas as classificações possíveis e imagináveis: há milenistas, milenistas pré, milenistas pós, a-milenistas, há gente de todo tipo.

6. E há uma categoria: teólogos - e sérios! - que consideram, biblicamente, que não há "outra" volta de Jesus, porque a "presença" a que ele se referia ([n]os Evangelhos) era aquela sob cuja forma ele viveu e morreu. Fala-se, aí, de escatologia realizada.

7. Ora, uma categoria inteira de livros muito sérios, de gente muito séria, considera que toda a expectativa das igrejas a respeito de uma "segunda volta" de Jesus constitui equívoco da Igreja primitiva que, desconsiderando o sentido das palavras de Jesus, aplicou-as, equivocadamente, a um futuro a que Jesus não se teria referido, uma vez que ele teria falado de sua presença lá e então, entre os judeus.

8. De modo que as doutrinas que circulam nas igrejas não tem nenhuma relação direta com Deus - se é que tem relação indireta! São construções elaboradas pelos receptores das tradições, que, por sua vez, receberam de outros, que, por sua vez, receberam de outros e, quando você vai ver a origem, ela chus, e virou bus.

9. Somente a catequese e o púlpito, eficientes em termos psicológicos, são capazes de nos fazer vincular doutrina e Deus. De sorte que, quando se nos apresenta, publicamente e às faces, a declaração indireta de que estamos diante de uma doutrina que, bem pesada, pode constituir ruído do tempo, corremos o risco de nos sentir próximos da blasfêmia, e, por causa disso, tememos.

10. Mas somos teólogos e teólogas. Nunca é Deus quem se ofende. Somos nós! É nossa tradição que é confrontada, e nos ofendemos. Porque, no fundo, não aprendemos que estamos enfiados até o pescoço em pura tradição, e ainda alimentamos o desejo - é só o que é: desejo - de que essas tradições sejam, queira Deus!, divinas.

11. Mas não são.

12. Quando, então, eu digo, de modo muito alegre e brincalhão, para uma turma, que se Jesus não voltar em dez minutos, essa questão específica do Hebraico vai cair na prova, com o que eu quero dizer que não há chance de a questão não cair - porque Jesus não vai voltar (e não voltou!) em dez minutos, isso nada tem a ver com Deus, com temor ou falta dele, com blasfêmia ou reverência: isso é apenas a constatação óbvia de que esses mantras são hipnóticos apenas para quem ainda é rã de charco sob o facho de luz das homilias...

13. Teólogos e teólogas podem, ainda, ser rãs de charco: mas devem comprar e usar óculos escuros, porque, enquanto as homilias nos encantarem os olhos com sua luz cegante não faremos teologia para a qual valha a pena dedicarmos as nossas noites, que melhor gastaríamos no amor quente do corpo amado...


*Osvaldo Luiz Ribeiro é doutor em teologia e professor da Faculdade Unida de Vitória.

texto disponível em: 

terça-feira, 5 de junho de 2012

A “hermenêutica da tortura” de Silas Malafaia

Por Paulo Nascimento



Não tenho nenhum problema em assumir que já gostei de Silas Malafaia. Eu o ouvi pela primeira vez em 1998, já na fase dos DVDs. Lembro-me exatamente a primeira mensagem que ouvi daquele pastor. Era uma reflexão sobre legalismo. Malafaia me chamou muito a atenção por mostrar uma postura diferente no contexto da Assembleia de Deus – igreja conhecida pelo seu rigor quanto aos chamados usos e costumes.
Mas também não tenho nenhum problema de dizer que faz tempo que Malafaia deixou de ser um pastor interessante para mim. Infelizmente, hoje o vejo como mais um subproduto de uma mentalidade evangélica com a qual não me identifico em qualquer aspecto. Malafaia frustrou as esperanças de quem achou que sua ruptura com os padrões históricos da Assembleia de Deus iria apresentar alguma novidade interessante dentro do protestantismo brasileiro. Esperávamos um pentecostalismo inteligente, engajado, dialógico, que no fervor do Espírito Santo pudesse trazer um renovo genuinamente brasileiro ao nosso protestantismo. O que vimos aparecer? Uma reprodução caricatural da pior versão do evangelicalismo norte-americano. Justamente aquela que se pauta na voracidade por dinheiro e por poder político-midiático.

Recentemente Malafaia desafiou blogueiros e “críticos” a refutarem suas posições sobre prosperidade. Exibiu uma mensagem em que fala sobre o assunto, e desafiou seus desafetos a apresentar-lhe supostos erros teológicos. Interessante é que Malafaia não abre nenhum canal para o debate. Não dialoga com ninguém. Desafia os críticos, mas não senta à mesa com eles, nem os convida para uma conversa franca em seus programas na TV. Vocifera na segurança dos estúdios e dos púlpitos. Mas teme o calor de um papo com gente madura. É soberano nos monólogos. Nada mais.

Não me alongarei numa resposta à sua fatídica exposição de 2Co 8 e 9. Não é preciso refutá-la ponto a ponto, pois quando algo está contaminado desde a raiz, a obviedade da podridão do resto é notória. Antes, é preciso reconhecer que Malafaia não possui mesmo outra alternativa. A fim de sustentar toda estrutura religiosa que lhe circunda e lhe beneficia – exposta em seu nababesco estilo de vida –, é preciso torturar o texto bíblico para que ele fale não a sua própria verdade, mas a verdade que o torturador procura. Como um torturador empunha as suas ferramentas e faz gemer o torturado a fim de produzir uma verdade a qualquer custo, Malafaia empunha suas lentes hermenêuticas prévias a fim de que o texto produza uma verdade-mentira. O que temos? Um sujeito arguto violentando textos e mentes.

Malafaia despreza todos os elementos contextuais de 2Co 8 e 9. A palavra “contexto” não aparece uma só vez em sua fala. E que contexto é esse? É o contexto de uma coleta efetuada por Paulo, a fim de socorrer a comunidade cristã de Jerusalém, que passava por um momento de grande necessidade.

Paulo escreve aos coríntios e lhes apresenta o exemplo de como haviam procedido os cristãos da Macedônia nesse tocante, mostrando grande generosidade diante da difícil situação dos pobres de Jerusalém. Toda a argumentação de Paulo nos capítulos 8 e 9 de 2Co é um esforço de fazer os coríntios se integrarem numa corrente de solidariedade. Não há nesses capítulos nenhuma “doutrina” sobre dízimos e ofertas. Não há nenhuma “lei de semeadura”. Há, outrossim, a descrição de uma experiência de solidariedade. Há uma exposição de um apóstolo que calejava as mãos produzindo tendas, e cujo coração se comovia com a situação dos pobres e necessitados de Jerusalém. Há alguém que acreditava no poder da solidariedade, e que argumentava em favor dela, dizendo que solidariedade produz solidariedade.

Malafaia subverte a compreensão mais rudimentar do que seja a Graça de Deus. Subverte aquela compreensão basiquinha da Graça como um “favor imerecido”. Pois se o favor de Deus é equivalente às ofertas “semeadas” (isto é, dadas em dinheiro à igreja!), tal favor já não é imerecido. Na verdade, já nem é mais favor. É fruto de barganha. Não é Graça, mas des-graça. É mesmo inexplicável que Paulo tenha ensinado acerca das “leis da semeadura” e tenha permanecido um operário, um fazedor de tendas durante a vida.

Malafaia comete um equívoco semelhante ao que o pentecostalismo fez com Atos 2: o equívoco de institucionalizar uma experiência. O pentecostalismo fez das experiências do Dia de Pentecostes, descritas em Atos 2, um Dogma. Exigiu sua replicabilidade como critério da genuína experiência do Espírito. Enclausurou as amplas possibilidades do agir do Espírito no carisma do “falar em línguas”. Empobreceu por completo a sua própria experiência pneumatológica. O Espírito, obviamente, foi soprar em outros movimentos da sociedade. Malafaia comete o mesmo erro na sua tortura a 2Co 8 e 9. Engessa e dogmatiza uma experiência pontual. Empobrece aquilo que poderia ser potencialmente disparador de uma espiritualidade solidária. A experiência de solidariedade humana é, desse jeito, revivida em outros arraiais. Alguns não-cristãos. Outros anti-cristãos. Glória a Deus!

A hermenêutica da tortura operada por Malafaia em 2Co 8 e 9 é irônica e trágica. Irônica, pois trata-se de um televangelista rico, numa sociedade capitalista, apropriando-se e torturando textos de um apóstolo pobre, de uma sociedade pré-capitalista. Trágica, pois aquilo que poderia ser fundamento de uma espiritualidade da solidariedade, tão urgente em nossos dias, torna-se fomento para uma teologia diabólica, em que Deus é constrangido a prosperar indivíduos em seus desejos egoístas e consumistas.